A arte esquecida de respirar I - A respiração
Sandra Resina dos Santos Galvão - Navrattnayoga Mercês

A respiração e o pramayama são termos muitas vezes considerados sinônimos principalmente para nós ocidentais. Na realidade, embora guardem certa relação entre si, pois possuem  semelhança exterior, diferem profundamente em sua natureza essencial. Em linhas gerais podemos dizer que a função primordial do prayanyama é o controle do prana (energia vital) e não o controle da respiração. A respiração representa apenas uma das suas muitas manifestação  do prana  no corpo físico. Não obstante essa diferença, a relação íntima entre prana e respiração nos permite, através do controle da respiração, manipular as múltiplas ações no prana no corpo, através da prática como os pranayamas.

 

Assim, o próprio conceito de respiração é muito mais amplo se analisados pela perspectiva do Yoga, pois além dos aspectos fisiológico temos os aspectos psico-emocionais e energéticos envolvidos.

Como primeiro e último ato do ser humano, a respiração também é um ato social, pois nos mantém em constante intercâmbio com o mundo que nos rodeia. Através da respiração também absorvemos prana, energia vital que confere a íntima relação entre respiração e a mente. O prana existe em todos os planos de manifestação e é o elo que liga a matéria à energia e a consciência à mente. O prana age como a força intermediária que faz com a consciência, que se expressa através da mente, entre em contato e aja na matéria. Assim a respiração estabelece ligações entre o corpo, a mente e o espírito.


 

 Apesar de a respiração ser uma parte vital, nós tendemos a ignorá-la. A respiração é tão simples e tão óbvia que muitas vezes é esquecida assim como é ignorado o poder que tem de afetar o corpo, as emoções e a mente. Assim é que ao nascermos a respiração profunda, natural e equilibrada, gradativamente torna-se rápida superficial, forçada e desequilibrada, à medida que intensificamos nossa relação com o mundo exterior e nos harmonizamos com as tensões do dia a dia.

Ainda no aspecto fisiológico a respiração é o processo pelo qual um organismo vivo troca oxigénio e dióxido de carbono com o seu meio ambiente e  a nível celular é o processo de conversão das ligações químicas das moléculas em energia necessária á todos os processos metabólicos.  Para o yoga esse processo é executada através de fases que correspondem inspiração ou puraka, a expiração ou rechaka e outras duas fases que compreende as retenções com os pulmões cheios e vazios ou Kumbhakas interno e externo. Embora as retenções sejam imperceptíveis durante a respiração, são essencialmente importantes à pratica dos pranayamas. 
A inalação, inspiração ou puraka é o movimento de entrada do ar nos pulmões. É o ato em que o indivíduo recolhe ou deixa-se penetrar pelo ar que necessita, é o estar receptivo ao externo.
A Expiração, exalação ou rechaka é o movimento de saída de ar dos pulmões. É o ato de se desprender, deixar-se expandir ou doar-se para o
externo.
A retenção com os pulmões cheios ou kumbakha interno é a pausa que corresponde ao momento em que a inspiração transforma-se em expiração. É ao ato de assimilar, de conservar aquilo que absorvemos do meio externo e distribuí-lo para todo o nosso ser.
A retenção com os pulmões vazios ou kumbhaka interno é a pausa que corresponde o momento em que a expiração transforma-se em inspiração. É o estado vazio, a ausência do mundo é o momento individual de abstração semelhante á morte.

 

O equilíbrio do processo respiratório se manifesta pela perfeita interação entre as fases respiratórias e o modo de executá-las. Esse equilíbrio é único, pois temos sobre ele o controle voluntário e consciente e o controle involuntário e inconsciente. Se quisermos, podemos acelerar retardar, parar e recomeçar o ritmo respiratório. Torná-la mais profunda ou superficial. Podemos através de a respiração alterar nosso estado de humor,  fazer-nos animados ou calmos, tensos ou relaxados.  Podemos fazer os nossos pensamentos confusos ou claros. No entanto, quase todo o tempo esquecemos inteiramente da respiração, deixando-a por conta do controle involuntário.
O nosso modo habitual de respirar é suficiente para sobreviver, mas não com  uma alta vitalidade. Além dos aspectos físicos, a respiração inadequada produz capacidade mental diminuída, assim como o inverso também é verdadeiro. As tensões mentais produzem alterações no padrão de respiração.
Existem várias razões para que a nossa respiração torne-se desequilibrada, porem nosso modo de respirar também diz muito sobre em quem nos tornamos e como nos relacionamos conosco e com o mundo
.
À medida que passamos pela vida, vamo-nos adaptando as situações criando mecanismos de defesa que tornar-se parte de nossas vidas e moldam a nossa maneira de respirar. A boa notícia é tudo isso é reversível. A má notícia é que antes de revertermos essa situação, devemos reconhecer e aceitar que o nosso comportamento precisa ser mudado. A observação da respiração e uma boa maneira de iniciarmos esse reconhecimento.
Em "Fundamentos e Técnicas do Hatha Yoga", Antonio Blay delineou os principais padrões de respiração que possui correspondência com os alguns traços de comportamento. Para o autor determinados traços psicológicos são observados nas fases da respiração e o modo como são executadas. Assim o autor aponta os seguintes 4 padrões respirações e traços psicológicos:
 
1. respiração completa, natural sem esforço: - nesse padrão respiratório ocorre a total circulação da energia caracterizando uma respiração própria das pessoas sadias sob todos os aspectos. Neste padrão as fases da respiração comportam-se da seguinte maneira:

 

fase inspiratória ou puraka: deixamos que o ar e a energia entre livremente na medida exata de nossa necessidade. Mantemo-nos em atitude aberta, aceitando as pessoas e situações como elas são
fase de retenção com os pulmões cheios ou  Kunbhaka interno: aproveitamos todo o ar e a energia que o mundo nos oferece. Demonstramos concentração e aprofundamento da mente sobre algo que está presente. Consciência da própria realidade
fase expiratória ou rechaka: desprendemo-nos, deixamos retornar ao mundo, afrouxamos, descansamos. Entregamo-nos a expansão total de nós mesmo para o mundo em uma atitude generosa e abnegada.
Fase de retenção com os pulmões vazios ou Kunbhaka externo: atitude receptiva para algo completamente novo. Consciência da própria relatividade.

 

2. respiração completa, tensa, ativa  e forçada: essa é uma respiração própria de pessoas que estão em ação, porem quando não combinada com o padrão anterior poderá levar a pessoas ao esgotamento alterando a saúde, estado de ânimo e capacidade mental. Neste padrão as fases da respiração comportam-se da seguinte maneira:
 

fase inspiratória ou puraka: Tomamos do mundo o ar e a energia de que necessita antes que o próprio mundo lhe dê. Mantemo-nos em atitude contraída, de enfrentamento, necessitamos de afirmação de nossa própria capacidade e segurança perante a nós mesmo.
fase de retenção com os pulmões cheios ou  Kunbhaka interno: aproveitamento total da energia, mas com a tendência de reter e conservar o que possui a mais do lhe é devido. Exagerado desfrute das próprias posses
fase expiratória ou rechaka: Mantemo-nos à prudente distância das pessoas e coisas ao mesmo tempo em que rechaçamos e expulsamos o que considera inútil ou prejudicial. Mantemos a atitude de auto-suficiente.
Fase de retenção com os pulmões vazios ou Kunbhaka externo: nesse padrão respiratório quase nunca se observa esta fase. Estamos muito ansiosos para fazer relaxar

 

3. Respiração insuficiente, superficial. Essa é uma respiração própria de pessoas que estão fechadas em seus conflitos. Temem sair de si mesmo  por temer a sua relação com o mundo e o modo como o mundo se relacionará com ela, assim vivem abaixo de suas possibilidades sofrem por produzir menos do que poderia. Neste padrão as fases da respiração comportam-se da seguinte maneira:
 

fase inspiratória ou puraka: tememos colher, pedir, receber ou aceitar o que o mundo nos oferece, , não permitindo que penetrem em nosso interior. Vive apenas na superficialidade
fase de retenção com os pulmões cheios ou  Kunbhaka interno: quer reter, conservar de modo compulsivo. Não quer soltar, atuar ou expressar-se. Teme sair de si mesmo

fase expiratória ou rechaka: atitude de protesto, repulsa, é a  agressividade sendo despejada no mundo..
Fase de retenção com os pulmões vazios ou Kunbhaka externo: quer isolar-se, distanciar-se fugir. Teme colher, pedir e receber, teme viver


4. Respiração violenta, abrupta. Essa é uma respiração própria de  estados psíquicos patológicos apresentados em ocasiões de crise ou em indivíduos que possui grande irregularidade do ritmo em todas as coisas da vida, com muita inibição e explosões de agressividade. Neste padrão as fases da respiração comportam-se da seguinte maneira:
 

fase inspiratória ou puraka: ansiamos em ter, em receber, em possuir,  na maioria das vezes mais do que necessitamos. Temos a necessidade urgente de reafirmação por termos a sensação de perigo iminente
fase de retenção com os pulmões cheios ou  Kunbhaka interno: quer reter, conservar de modo compulsivo. Não quer soltar, atuar ou expressar-se. Teme sair de si mesmo
fase expiratória: protesto repulsa e agressividade
Fase de retenção com os pulmões vazios ou Kunbhaka externo: não que relação com o mundo, desejando fugir para o abstrato ou para consciente. Nega-se a colher, pedir e receber, nega-se a viver

 

Exercício: extraído do Livro “Como Meditar – Guia Prático” de Kathleen McDonald
 

• Sente-se com as costas eretas e relaxe o corpo.
• Imagine que o seu propósito é a sua respiração e que você manterá a atenção em de modo a alcançar seu objetivo.
• Concentre-se na sensação na ponta do seu nariz, a medida que a ar entra e sai do corpo.
• Mantenha sua atenção nesta percepção sutil e observe a duração completa de cada inspiração e expiração.
• Lembre de manter a respiração natural e suave, mantenha uma atitude neutra somente de observação.
• Identifique as regiões do seu corpo mais ativas; se a respiração é superficial ou profunda, se é rápida ou lenta, irregular ou rítmica.
• Ao final observe os efeitos da prática em seu corpo, respiração e mente.
• Agora compara suas impressões com o quadr0 anterior.

 

 O Antonio Blay ressalta que a validade dessas  manifestações são demonstradas quando observadas de maneira dominante e habitual na respiração. Assim é que quando mais consciente formos de nossa respiração mais consciente seremos a respeito de nos mesmos.
 




 

Namastê
Sandra



Para saber mais:
Blay, Antonio. Fundamentos e técnica do Hatha Yoga, Edições Loyola
Henriques, A. R. Yoga e Consciência, Editora Rigel
Taimni, I.K. A Cienência do Yoga, Eitora Teosófica
Kuvalayananada. Pranayama, Editora Phorte
McDonald, Kathleen. Como Meditar - guia prático. Editora pensamento 

 www.imagick.org.br/pagmag/pratick/Pranayama.ht

www.abc-of-yoga.com/pranayama/

 

 

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